Emoção!! Maria Bethânia e Cleonice leem Fernando Pessoa

A penúltima mesa de quinta-feira na Tenda dos Autores foi, com certeza, muito emocionante. Contou com a presença da professora Cleonice Berardinelli, de 96 anos, e da cantora Maria Bethânia. As duas leram poemas de Fernando Pessoa, incluindo seu heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro.

Quando a professora entrou, bem devagar, foi aplaudida de pé por todos que estavam assistindo. Esse foi o primeiro momento emocionante da noite. Ao falar, pediu para que todos esquecessem o sério “Cleonice” e a chamassem apenas de “Dona Cléo”. Com Maria Bethânia, não foi diferente. Também foi aplaudida de pé, mas preferiu não dizer nada no início.

Os primeiros poemas lidos, que Fernando assinou com o próprio nome, não possuíam títulos, pois essa era uma característica do autor. Logo depois, passou para o primeiro heterônimo – e talvez o mais conhecido – Álvaro de Campos. Todos se emocionaram.

(…)
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
(trecho de Poema Em Linha Reta)

Passou, então, para Ricardo Reis, onde os principais temas eram o não temer a morte, procurar os simples prazeres da vida (carpe diem) e fugir da dor. Nessa parte, não houve tanta emoção por parte da plateia, mas não deixou de ser lindo.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
(trecho de Autopsicografia)

Foi a vez de Alberto Caeiro, que foi a parte mais emocionante da noite. Com a leitura de “Poemas Inconjuntos”, a plateia foi a loucura.

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.
(Poemas Inconjuntos)

Os poemas, ou parte deles, eram lidos alternadamente pelas duas. Uma aula de interpretação e amor à poesia. Bethânia é uma apaixonada confessa de Pessoa. Já Cleonice, a maior especialista no poeta português, autora de várias obras sobre ele.

Depois das leituras, a mesa foi aberta para as perguntas da plateia. Muito menos empolgante que a primeira parte, mas com momentos engraçados. Cleonice contou que só conheceu a poesia de Fernando Pessoa quando começou a lecionar, por indicação de um amigo professor. E a partir veio sua primeira pesquisa sobre e ele e toda uma vida de relação.

Bethânia repetiu que o português é o poeta da sua vida, mais do que uma preferência. “Ele é meu Red Bull”, disse Bethânia. “O Fernando é esquisito, por isso eu gosto dele”

Texto: Marianne Aggio, de 17 anos

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