Eliane Brum por Eliane Brum: “Escrevo para desacomodar o leitor, e não para apaziguá-lo”

Ela é gaúcha e leu tudo o que pode durante a infância. Achava jornal muito chato, “pois não tinha gente”. Sempre muito inquieta e curiosa, prestou vestibular para biologia e informática, e iniciou a faculdade de história, que não concluiu. Durante o curso de jornalismo na PUC/RS, no qual se formou, quase desistiu. Mas um professor acabou por convencê-la, era um caminho que merecia ser percorrido.
Foi graças a um texto de faculdade que surgiu um estágio no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, onde trabalhou por onze anos. Outros dez ela viveu como repórter especial na revista Época. Depois foram outros jornais e revistas, com Eliane sempre valorizando a boa escuta e perseguindo a qualidade do texto em suas reportagens.

Jornalista das mais premiadas do Brasil, recebeu mais de sessenta prêmios nacionais e internacionais, inclusive por seus documentários. Com seu livro-reportagem “A vida que ninguém vê” (Arquipélago Editorial), venceu o prêmio Jabuti. Mantém uma coluna na versão nacional do El País e na Copa do Mundo acompanhou a Seleção Brasileira de perto, em cobertura para o jornal Folha de S.Paulo.
Seu novo livro, “Meus desacontecimentos” (Leya Brasil), está entre os lançamentos nessa Flip 2014, para a qual foi convidada a dividir a mesa “Poesia & Prosa” com Gregorio Duvivier e Charles Peixoto, numa conversa sobre as fronteiras do gênero literário.

Em entrevista exclusiva por email, ela respondeu a quatro jovens da FlipZona interessados em seus textos, os alunos Rafaela Marsico, Luan Vinícius, Manoel Antonio, Gabriel Giudice e Arthur Verdelone. Na conversa, entre outras afirmações, a jornalista e escritora diz acreditar no poder da narrativa como instrumento de transformação da vida, “e especialmente das realidades injustas”. Acompanhe aqui e saiba: Eliane Brum confessa que adorou ser entrevistada a partir de perguntas que, segundo ela, demonstraram que a moçada lê e gosta de suas reportagens. 

EBRUM-0047 PARA O BLOG

Em contexto mundial, você acha que existe uma cultura mais evoluída do que outra ou todas vivem em constante evolução?
Eliane Brum – Acho que não há uma cultura mais “evoluída” que outra nem em contexto mundial nem em contexto de qualquer tipo, espacial ou não. O que há são diferentes formas de perceber, interpretar e interagir com a natureza e o “outro”. O que há são diferentes formas de narrar o nosso ser/estar no mundo.
Quando se usa critérios de mais ou menos evoluído é sempre com vistas ao exercício autoritário do poder, manipulando com a suposta primazia de uma cultura – a que se anuncia como “mais evoluída” – sobre outra, a que supostamente seria “menos evoluída” e, portanto, com menos direitos de ser aquilo que é.

No Brasil, isso é muito comum com relação aos povos indígenas (vistos como todos iguais, quando são de uma diversidade assombrosa) na sua relação com os não índios. Por exemplo, quando se justifica a construção de uma grande hidrelétrica como Belo Monte no ecossistema do Xingu, afetando povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas sem sequer consultá-los.

Mesmo passados 50 anos do golpe militar, você acha que nós brasileiros, em especial a classe média, ainda possuímos um pensamento enraizado na ditadura e no autoritarismo em relação à Amazônia e à cultura indígena?
Eliane Brum – Sim, eu acho. Mudou-se a forma de compreender o Brasil em vários aspectos e condena-se o autoritarismo em diferentes instâncias. Mesmo com críticas à democracia vigente e apontando a necessidade de ampliar as formas atuais de participação, é preciso reconhecer que vivemos num regime democrático.

Mas a visão atual de uma parte significativa da sociedade, assim como dos governos Lula-Dilma, é muito semelhante à visão da Amazônia construída pelos governos militares. Isso tanto no que se refere ao modelo de ocupação, com a construção de grandes obras, quanto à forma de intervenção, sem consulta às comunidades afetadas por essas grandes obras. Nesse olhar, o outro (no caso povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas) não tem nada de relevante a dizer, não é reconhecido como um sujeito de direitos nem como um interlocutor por quem se deva ter respeito. É um olhar limitado, que convenientemente finge enxergar a Amazônia como um gigantesco vazio humano – e não como um espaço múltiplo, ocupado por povos com uma diversidade cultural impressionante, que teriam muito a colaborar com a construção de um Brasil mais criativo, igualitário e viável do ponto de vista socioambiental.

É muito triste, mas mais do que triste, é criminoso. O exercício político desse olhar só é possível porque a maioria do que se chama povo brasileiro desconhece a Amazônia, as várias Amazônias. Ou, pior ainda, nem percebe que deveria conhecê-las.

Os textos que você escreve abordam questões críticas e importantes. Onde você acha que pode chegar sua liberdade crítica, sem medo de ser prejudicada? De alguma forma você já sofreu alguma censura por abordar algum assunto?
Eliane Brum – A coluna de opinião, que hoje escrevo no El País, é uma das minhas atuações como escritora, já que também sou repórter e ficcionista. Acredito que o papel de um colunista é qualificar as questões da sua época, tirando o leitor do seu lugar para que ele possa ver determinado tema por outros ângulos possíveis. Escrevo para desacomodar o leitor, e não para apaziguá-lo. Para isso, preciso me tirar do lugar constantemente, o que é um exercício trabalhoso.

Ao escolher fazer uma coluna de opinião, escolho assumir esse risco. Às vezes, é bastante difícil. Às vezes, é duro por bastante tempo. Mas é um risco que assumi. E acredito na importância de escrever sobre o que escrevo da forma como escrevo. Acredito enormemente no poder da narrativa como instrumento de transformação da vida – e especialmente das realidades injustas. É isso o que me faz ser repórter e, agora, também, a escrever artigos de opinião. Se, em algum momento, por uma razão ou outra, chegar à conclusão de que não posso mais assumir esse risco ou enfrentar a dureza da reação a algumas de minhas intervenções, aí vou fazer outra coisa. O que jamais farei é enganar o leitor, dando a ele menos do que deveria por covardia ou por simplesmente escolher o caminho mais fácil. Isso banalizaria a minha própria vida – e me alienaria da minha escrita, o que seria uma forma de morte. 

A partir do seu texto “É possível morrer depois da internet?” publicado no jornal El Pais, pode- se concluir que cada um de nós seja um imortal? A quem interessaria a imortalidade coletiva? Você pode falar um pouco sobre isso?
Eliane Brum – Eu jamais diria a alguém o que pode ou não concluir sobre um texto meu. Acho que um texto deve ficar sempre em aberto e cada leitor é um escritor que continua a escrevê-lo a partir de suas próprias circunstâncias e interrogações. Então, se é um texto meu, a cada leitura também deixa de ser meu. Cada leitor lê seu próprio texto.

Dito isso, acho que, como espécie, por conta de nossa consciência da morte, sempre quisemos desesperadamente permanecer. Seja com um filho, seja com uma obra. Precisamos nos reconhecer no olhar do outro dia após dia para saber que existimos. Nessa nova época, trazida pela internet – e esta, sim, é uma revolução de fato – temos de enfrentar uma outra questão, que é a importância do esquecimento. Com as redes sociais e os sites de busca, tudo, e especialmente as nossas banalidades, permanecem.

O que era fugaz agora fica. O que podia ser superado pode ser reeditado a qualquer momento. Como digo lá, mais definitivo do que gravar em pedra parece ser gravar na nuvem. Isso altera toda a nossa relação com a memória, que é uma questão muito profunda, que tanto nos define quanto nos desestabiliza. Adoro aquela frase, que está na peça teatral libanesa: “É possível estar fora do corpo, mas não fora da linguagem. Meu amigo, a única forma de morrer é estar fora da linguagem – ou nunca ter falado. Você falou muito, palavras demais. Para sempre estará preso na linguagem”. Será que era isso que buscávamos?

Você já se sentiu desfavorecida no meio literário por ser mulher? E como repórter, teve alguma dificuldade nesse sentido? Pode citar a situação?
Eliane Brum – Ser uma mulher, ainda na minha geração, é ter se tornado mulher de violência em violência. Escrevo particularmente sobre isso no meu último livro – “Meus desacontecimentos, a história da minha vida com as palavras”. No meu primeiro romance, “Uma Duas”, escrevo sobre como uma filha se arranca do corpo da mãe. A violência, de várias maneiras, é uma presença na minha vida, assim como, suponho, na vida da maioria das mulheres.

Como repórter, sofri assédios de todo o tipo, mas nada que tenha inviabilizado alguma reportagem. Jamais permiti que me aviltassem ou me desrespeitassem. Explicitamente, apenas uma vez um editor escolheu, em vez de mandar a mim, enviar um repórter homem para uma zona de guerra. Achava que eu era a melhor escolha, pelo tipo de matéria, mas disse que pensou muito e concluiu que seria perigoso por eu ser mulher. Eu respondi a ele: “Só entendo isso se você acha que é preciso escrever com o pinto. Aí, realmente, não posso fazer nada. Se não, não entendo a sua escolha”.

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