A vida secreta de uma pedra

Por Nathália Nascimento, de 13 anos

Parte 1 – Eu e a pedra

Quando penso na dor, várias palavras vem à mente. Mas uma em especial surge com força. Meus pensamentos costumam mudar em relação à palavra dor, mas a palavra Pedra quase sempre está acompanhada com ela.

Parei para pensar em quantas vezes já tropecei em uma pedra, e em quantas vezes ela nunca reclamou. Por que ela nunca reclama?

Apesar de ficar parada, sua vida pode ser bem movimentada. A maioria das pedras de Paraty são bem democráticas, fazem todo mundo tropeçar nelas sem preconceito. Muita gente torce o tornozelo, machuca a unha, quebra saltos, estoura o dedo, entre tantos outros machucados terríveis que elas causam.

Nunca parei para observar uma pedra, nunca me coloquei no lugar dela, nunca parei pra ver sua rotina. Mas um dia, uma pedra me conquistou. Ela estava lá, parada em frente à igreja da matriz, com sua forma de cone de sorvete – e eu com aquela fome. “Parece com uma pipoca”, disse a pipoqueira. “Eu também costumo compará-las com as três Marias. Ela e as duas pedrinhas ao seu lado, acredito que são suas filhas”, continuou.

E como andava o dia da pedra? Será que ela fica feliz em machucar alguns pés só por ser uma pedra? Até porque, cá entre nós, seu nome é associado à palavra dor.

Poucas pessoas param para pensar que ela poderia ter uma vida secreta. Cheguei à conclusão de que ela não era excluída, e sim reservada. Sua rotina talvez não envolvesse só o trabalho de fazer as pessoas tropeçarem. Seu trabalho podia ser o de cuidar de suas filhas, e talvez até de seu marido pedra.

Depois das palavras da senhora do carrinho de pipoca, percebi que não estava apenas observando a vida de uma pedra. Estava observando a vida dela, a PEDRA. Sentei e continuei observando. E por incrível que pareça ela também olhou para mim! E me contou sua história.

*

Parte 2 – A pedra e eu

Muitos seres vivos me vêem como uma ameaça, mas na maioria das vezes não é minha intenção machucá-los. Eu só faço meu trabalho como pedra.

Só porque sou imóvel e não tenho uma face, não significa que eu não veja e não sinta. Mas esse é o problema dos seres vivos… Em especial, esse é o problema dos seres humanos.
Minha vida é bem atarefada, apesar de não parecer. Eu trabalho duro! Na maioria das vezes, trabalho machucando tornozelos e torcendo pés. São alguns serviços pequenos que faço.

Pode até parecer estranho, mas não fico contente em machucar alguém. Fico até meio decepcionada, porque não é nem um pouco legal ser xingada por apenas fazer o seu trabalho.

Meu nome me faz parecer dura e rígida, mas eu não sou bem assim. Fisicamente, é claro que sou. Mas nem sempre meu modo de agir é assim. Eu até faço bem às pessoas! Por exemplo: quando alguém está indo no caminho errado ou vai fazer algo de ruim, eu interfiro. Ou quando uma moça cai, com minha ajuda, e um belo jovem vai ajudá-la. Ai eles acabam se tornando almas gêmeas. Eu também sou legal a ponto de fazer alguém cair só pra ela dar boas gargalhadas.

Pense bem, não sou muito diferente de um ser vivo. Pelo menos é o que eu acho. A cada ser vivo que eu faço tropeçar, uma história diferente acontece. Assim, eu não tenho somente a minha história pra contar. Eu tenho várias histórias. Porque eu não sou apenas uma pedra, eu sou A Pedra.

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2 respostas para A vida secreta de uma pedra

  1. Adriana disse:

    Quanta imaginação Nathália… Adorei seu texto, parabéns!

  2. Cėlia Cristina dos Santos disse:

    Quanta sensibilidade. Parabéns Natáhlia. Sucesso.

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