Diário de campo: um encontro com Davi Kopenawa

DSCF1127“Desde o descobrimento da América em 1492, pôs-se uma máquina de destruição dos índios ” (CLASTRES, Pierre)

Em seu livro “DO ETNOCÍDIO”, Pierre Clastres, importante antropólogo francês , diz que em suma o genocídio assassina os povos em seu corpo, e o etnocídio os mata em seu espírito. Em ambas as barbáries, podemos visualizar uma dimensão do “o outro”. O outro sempre é diferente, sempre é nocivo. Enquanto para o genocida há uma vontade de exterminar uma minoria racial, o etnocída anseia pela destruição sistemática dos modos de vida e pensamento de povos diferentes daqueles que empreendem essa destruição. Sim, como você pode estar imaginando, os povos indígenas são alvos desses dois grupos, só que conhecemos melhor como garimpeiros, mineradores, políticos, madeireiros. Todos com o mesmo objetivo impulsionado pelo lema da bandeira” ordem e progresso” no qual “o amor” é literalmente excluído da tríplice positivista. E essa é a luta de um grande homem de cerca de 1,60, Davi Kopenawa Yanomami, o qual tive oportunidade de conhecer e acompanhar durante a FLIP.

DSC09500Manhã de quinta feira da FLIP, centro histórico ainda acordando, me dirigi até a “pousada do ouro” nervosa, sem saber que tipo de pergunta faria, mas como fazer perguntas para uma pessoa que só o seu silêncio é pura sabedoria, além de estar preocupada com a filmadora que dera problema. Não é qualquer dia que se conhece Davi Kopenawa.

Fui em um carro acompanhada de dois integrantes do ISA, Marcos e Gabi, ( instituto socioamiental) ambos na parte da frente do carro, e eu atrás sentada ao lado de Davi Kopenawa, em direção a um encontro do mesmo com representantes de comunidades tradicionais de Paraty, os caiçaras, quilombolas e indígenas, em uma aldeia em Paraty-mirim. Durante a viagem, Davi elogiava o verde de Paraty, falava o tipo de animal que teria pela aquela floresta cortada por uma fina estrada de terra que termina em praia. “Tem onça sim”, ” e tem muito alimento pra onça” e imaginava se havia peixe no encachoeirado que acompanha a floresta. Marcos explicava para ele quem eram os caiçaras, e que ali era a mata atlântica, diferente da amazônica.

DSC09534Chegando lá, foi feita uma roda de apresentação, havia representantes dos guarani da região sul-sudeste, um professor indígena, moradores do Quilombo do campinho, membros do Fórum de Comunidades Tradicionais, caiçaras etc. Entramos para a escola indígena, enquanto membros de campanhas evangelizadores se aproximavam para visitar algumas casas, os mesmos que com a sua atitude etnocída trouxeram diversas doenças que exterminaram grande parte da população Yanomami.

Lá se iniciou o debate com o tema educação, primeiro os guaranis de Paraty mirim deram inicio, expondo a diferença no conceito de educação imposto dos brancos e a educação indígena. A própria língua é agente educacional paras os indígenas, por meio das histórias e ensinamentos dos mais velhos. Diferente do modelo imposto e opressor dos brancos. Posteriormente uma representante dos quilombolas, Laura, discutiu a importância da militância, algumas pessoas falaram, mas era nítida a vontade de todos de escutar Davi Kopenawa .

A sabedoria de Kopenawa, nome escolhido pelo mesmo que significa vespa (animal que ataca quando mexem com a sua casa), lhe é tão natural, que parece apenas rolar por sua boca a fora. E logo no começo diz: ” Somos diferentes, ninguém (aqui) vem de Portugal não, (foram) os portugueses que vieram aqui, vieram para invadir a nossa terra, ele não trouxe boas coisas não pra nós, foi pra invadir, destruir.”

E inicia um forte discurso em condenação as diversas ações do governo federal em diversos governos. ” Um governo não indígena, apoiar os índios , eu nunca vi. Só manipulando. ” ” A escola não é nossa, isso ai é para os políticos. Os políticos que entram na terra indígena ficam falando, conversando, pedindo foto, falando bonitinho, pra poder pegar as nossas fotos. Para eleger ele. É costume do branco assim” “Eu aprendi assim, aprendi apanhando. ”

” Os brancos entraram para ensinar a falar o português, para destruir a nossa língua”. Kopenawa aprendeu o português lendo a bíblia, no qual além de tentar destruir a sua cultura, lhe empurram um nome bíblico. Defende também que os mais novos aprendam o português para se defender, para lutar pelo seus direitos. “Não é pra aprender a falar, essas coisas, pra trabalhar pra brancos não, aprender a defender os nossos direitos. Defender a própria língua e cultura”.

“Nós indígenas fala, mas eles não escutam não. Porque nós somos outro povo. Ele nunca falou pra nós. Eles só querem acabar com a gente”, continua ele, referindo-se ao governo federal.

Nessa imensidão de falas, que eu não consigo transpô-las para um discurso indireto, pois elas por si só lidas falam, a que mais me chamou atenção foi a frase : ” A tecnologia é uma doença”. E desde então ela tem ecoado na minha cabeça. Concisa, clara e sábia. Essas 5 palavras: 1 artigo definido, 2 substantivos, 1 verbo e 1 artigo indefinido, evocam um debate que poderia durar até o fim dos tempos.

DSCF1133Davi também nos contou sobre as ameaças de morte, após uma pergunta feita por uma integrante da roda, e eu relembrava dos diversos “pseudo- intelectuais” que vêem a FLIP,e que se negam a pelo menos sorrir quando tentamos agendar algumas entrevistas. E eu estava sentada ali de frente a um homem que é constantemente ameaçado de morte, estudado por diversos antropólogxs de vários países, ganhador dos prêmios, e lá estava ele simpático e sorridente. Entre os prêmios que ganhou estão o Chico Mendes, Global 500 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e, recentemente, a Ordem de Rio Branco ao grau de Cavaleiro.

Mozaniel convidado de Kopenawa para vir a FLIP trabalha com audiovisual em defesa do seu povo, além de ter escrito um livro todo em yanomami para a educação infantil, também deu a sua palavra e reforçou também o que todos representantes de seu povo tinham falado, “não tem apoio”.

Encerrando a conversa em horário de almoço, todos foram convidados a almoçar no quilombo do campinho.

No dia seguinte, Davi fazia a sua segunda participação em Paraty, só que agora na FLIP, convidado da mesa 07 “Antes que o céu desabe” junto com a fotógrafa suíça, naturalizada brasileira Claudia Andujar e mediação de Eliane Brum. Era visível na plateia rostos indígenas, lembro como em um fotografia de uma índia carregando o seu bebê na frente do palco, sorrindo enquanto passava a mãos nos cabelos do bebê acalmando o seu choro . E então a mesa se inicia.

A mesa manteve-se em um tom mais neutro, não tão político quanto no encontro anterior, tendendo mais para o tema do xamanismo. E com o principal tema: a queda do céu. Que faz parte de uma obra comum a ambos. Davi com o seu livro de 800 páginas lançado primeiramente na França em parceria com um antropólogo Bruce Albert não traduzido para o português ainda. E Claudia com toda a sua doçura em seu trabalho fotográfico de derreter os olhos com tamanha beleza e força.

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A queda do céu, como ambos contaram, representa o fim dos tempos. O céu na língua Yanomami é aquilo que está acima de nós. O céu já caiu uma vez, extinguindo totalmente todos os seres vivos. Caso os seres humanos continuem a não respeitar a natureza o céu irá cair novamente. E vai matar a todos.

Claudia em um depoimento emocionante nos conta o porquê da escolha de conviver com os yanomami. Segunda ela, depois de ter perdido seus entes queridos no holocausto, e ter se mudado diversas vezes, o único lugar em que se encontrou e que sentiu que estava em casa foi junto com Yanomamis, pois eles não dominam, eles se tratam todos como iguais.

Assim encerro o meu quase diário de campo, com muitas questões ainda para serem pensadas, com muitas perguntas que tenho feita para mim mesma, impulsionadas por essa figura emblemática. E acrescento que a nós, enquanto enaltecedores do opressor, tentando de forma desesperada alcançar o tão esperado “progresso”, sacrificamos a nossa cultura. Nós, prole dos etnocídas e genocidas de todo dia, enquanto aplaudimos de pé a nossa ignorância, nunca saberemos o que é sabedoria.

Meu nome é Gabriela Marsico, tenho 18 anos, curso o segundo período de antropologia e nunca estudei sobre a América Latina, e muito menos sobre cultura afro-brasileira e indígena.

Fotografias: Gabriela Marsico e Rafaela Marsico

Agradecimentos: Marcos e Gabi

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Uma resposta para Diário de campo: um encontro com Davi Kopenawa

  1. Leandro disse:

    Parabéns a todos envolvidos nesse trabalho. Um agradecimento especial à Gabriela Marsico.

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