‘Quando se escreve para TV e cinema, aquilo não lhe pertence’, diz David Hare

Sábado, ápice da Flip, e o dramaturgo e roteirista David Hare faz o público rir com o típico humor inglês na Tenda dos Autores. Hare foi indicado ao Oscar pelos filmes As Horas (de 2002 e 2008). No início, narrou como é a vida de um dramaturgo e roteirista, pontuando as diferenças entre trabalhar com teatro e cinema.

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“Quando se escreve, tanto para televisão como para cinema, depois de entregar sua história, ela não lhe pertence mais. Tanto psicologicamente como legalmente, os direitos passam a ser de quem a compra. O diretor e os outros roteiristas irão mexer nela, e você é obrigado a acatar ideias que às vezes você não vê no contexto”, disse ele.

Hare comentou sua estratégia para manter o controle sobre sua produção e “defender” seu trabalho. “Acredito que a principal atividade em escrever uma obra às vezes nem é escrevê-la, mas defende-la na primeira reunião de equipe antes das filmagens. Muitas vezes me sinto mais advogado, defendendo meu roteiro que um escritor. E um conselho: nunca falem primeiro, só os idiotas falam primeiro em uma reunião”.  Quanto a escrever para teatro, afirmou ter mais liberdade. “Mas, liberdade mesmo, só têm os escritores, já que os atores são obrigados a seguir à risca os mínimos detalhes da história.”

Tornou-se dramaturgo de teatro em 1980, quando os filmes que fazia em Hollywood não o agradavam mais. Até que resolveu se aventurar em uma viagem a Israel e Palestina, acumulando bagagem para realizar um novo desafio e sair de “sua zona de conforto”.

Após essa condensação de experiências, voltou à Inglaterra para atuar em uma peça que não ficou apenas dentro das fronteiras do país, mas que atravessou o Oceano Atlântico e chegou a Nova York, onde recebeu elogios da crítica por seu novo rumo. Rumo este que, segundo ele, talvez tenha acabado junto com o término da peça. Quando indagado pelo mediador da mesa, Ángel Gurría-Quintana, o que tinha aprendido com a experiência de atuar, Hare respondeu que aprendeu a fingir o que não sentia e a respeitar as “frescuras” dos atores – coisa que não conseguia quando estava do outro lado da produção. “Nunca entendia como uma cadeira alguns centímetros mais distante podia incomodar tanto alguém”.

Um teor característico das peças escritas por Hare é a presença política nas tramas. Contou o episódio em que se recusou a escrever o roteiro para A dama de ferro, filme que retrata a vida de Margareth Tatcher ao se tornar a primeira ministra da Inglaterra no período pós-Segunda Guerra Mundial. “A Filosofia de Tatcher inda reina na Inglaterra. Eu não queria contribuir com mais uma obra que homenageasse alguém que fez com que a desigualdade social permanecesse tão forte e incentivou a prática mundial do neoliberalismo. O mercado é impessoal, garantir bem-estar em uma sociedade quando só se investe nessa política não dá certo”.

Hare também fez piada ao compartilhar com a plateia sobre o convite feito por George Lucas para dirigir em parceria o filme Star Wars 4 e 5. “Eu recusei, não me imaginava fazendo parte dessa linhagem de filmes. Ainda fiz uma piada, mas que acredito que George não tenha gostado muito. ‘George, se eu for fazer isso, será que vou ter que assistir ao 1, 2 e 3?’”

Por fim, dialogou com a plateia sobre a evolução da qualidade nas produções para a televisão. “Hoje temos Mad Man, Breaking Bad, Downtown Abbey, que revolucionam o modo de fazer drama na televisão. Sem contar o fato de que agora vemos claramente uma presença maior dos roteiristas na história. É um renascimento dos roteiristas. Começamos a identificar estilos de produção característicos, e isso é bom.” David Hare encerrou a mesa quase envergonhado com a salva de palmas, saindo de fininho pela esquerda do palco.

Marina Luiza de Valécio, de 19 anos

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