Mulheres literárias

Por Leandro Leite Leocadio, Alice Alcântara, Jéssica Maximiano*

Quando falamos sobre literatura brasileira, alguns nomes de poetas surgem quase que instantaneamente na memória. Encontramos em nossos arquivos mentais nomes consagrados de nossa poesia, como Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Castro Alves e Vinicius de Morais. Porém, é curioso observar a predominância de nomes masculinos, como se a literatura fosse exclusivamente dos homens. Sabemos que isso não é verdade.

Por que esse apagamento? Sabemos que historicamente as mulheres ficaram à sombra dos homens e na literatura não foi diferente. Nem mesmo grandes nomes da historiografia brasileira retratam grandes autoras, embora as mulheres estivessem desde muito tempo produzindo literatura. Com o tempo, algumas escritoras foram conseguindo seu espaço e acabaram se consagrando, como Cora Coralina, Rachel de Queiroz, Cecília Meireles, Hilda Hilst. À margem da consagrada poesia brasileira, encontramos nomes como Francisca Júlia e Ana Cristina Cesar e muitas outras que talvez você nunca tenha ouvido falar.

A décima quarta Festa Literária Internacional de Paraty vem homenageando a poeta Ana Cristina Cesar, uma grande escritora brasileira. Além dela, houve apenas duas outras mulheres homenageadas pelo evento. Essa homenagem é importante, pois incentiva o público a ler e conhecer mais as autoras desse gênero nada frágil da literatura brasileira.

Seria a literatura feminina menos interessante do que a masculina? Bom, como resposta a essa pergunta, oferecemos alguns poemas de nossas injustiçadas poetas. Boa leitura!

FISIONOMIA

Fisionomia
não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outrart
outra a dor que dói

Ana Cristina Cesar

ÁRIAS PEQUENAS. PARA BANDOLIM

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores
Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo. 

Hilda Hilst

NOTURNO

Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo funéreo
Se arrasta em direção ao negro cemitério…
À frente, um vulto agita a caçoula do incenso.
E o cortejo caminha. Os cantos do saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao lenço;
Chora no ar o rumor de misticismo aéreo.
Uma ave canta; o vento acorda. A ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da lua…
Uma estrige soluça; a folhagem farfalha.
E enquanto paira no ar esse rumor das calmas
Noites, acima dele em silêncio, flutua
O lausperene mudo e súplice das almas.

Francisca Júlia

*cobertura feita pela Central FlipZona

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